Hoje aconteceu uma coisa estranha. Na verdade essa coisa estranha tem acontecido há alguns dias. Aconteceu que eu acordei e não senti aquela dor no peito e na garganta que eu sempre sentia quando lembrava de você. Assim que eu percebi que não sentia essa dorzinha que me lembrava meus ataques de garganta inflamada, eu percebi que também não havia sonhado com você - e talvez tenha sido esse o motivo de não ter acordado pensando em você, "talvez eu precisasse ter sonhado com a nossa potencial futura vida juntos e acordado amargurada por não te ter", pensei. Foi quando eu percebi que já não sonhava mesmo com você e nem sobre você a alguns dias. Decidi então fazer mais testes. Tomei coragem, respirei fundo, abri meu olhos e disse em voz alta seu nome completo, todos os seus dois comuns sobrenomes acompanhando seu nome, que é mais comum ainda - só para ter certeza de que meu coração são sairia pela boca como toda vez acontecia quando alguém falava seu nome - e pufff... nada! Foi quando eu resolvi listar tudo sobre você que de alguma forma me afetava, só para atualizar o livro de traumas. Lembrei-me de quando eu tinha quinze anos e sofria por imaginar o dia em que você encontraria alguém para chamar de amor, e desfilaria na minha frente, sem más intenções ou provocações, apenas na inocência de acreditar que eu não me importava; e meu coração iria bater tão rápido que o sangue não chegaria a tempo para ser bombeado. Lembrei do conflito interior que eu sentia por você ser alguém tão diferente me mim, e me tratar tão diferente de todo mundo, e ainda sim eu escolher te dizer não. Um não que doeu tanto quanto uma despedida no porto. "Mas eu sou tão nova, um dia vou rir de toda essa minha besteira e vai ser como se não tivesse acontecido", eu pensava, e de certa forma eu tinha certeza de que eu estava certa. O fato é que, quase cinco anos se passaram, e eu vivi com o mesmo medo. Não o medo de te ver com alguém, até porque eu sabia [e até torcia para] que eventualmente iria acontecer. O medo era da minha reação, de o quão longe eu seria capaz de carregar aquele peso de ter escolhido não te ter e sem ser sua. Eu errei ao me entregar, mesmo que sem você perceber. Fico me perguntando se algum dia passou pela sua cabeça de que o sentimento era recíproco. Se você conseguiu perceber meus joelhos tremendo e minha voz gaguejando cada vez que eu precisava falar com você, ou sobre você. É engraçado, acho que você sempre achou que eu nunca gostei de você. Inevitavelmente, agora você já sabe mais ou menos como funcionava o pedacinho dentro de mim que tinha a letra inicial do seu nome. Tem mais algumas coisas que acho que você não sabe, e eu gostaria de compartilhá-las contigo.
Não quero dizer o porque de ter te dito não - até porque tenho certeza que você não iria compreender - , também não quero dizer que ainda te desejo, porque sendo verdade ou mentira, isso não tem cabimento aqui. Quero relatar o quanto meu coração ficou calmo e nada aflito ao te ver beijando outra boca. Não que eu não tivesse visto você com outras meninas antes. O que eu quero dizer é que ver você chamando outra de amor, sem nem ao menos lembrar de mim, não doeu nenhum pouco. Acho que meu medo de doer doía mais que a própria realidade, e isso me faz dar gargalhadas. Não imagino mais o meu futuro com você, e percebi o quanto eu amo mais os seus amigos do que você mesmo. Não quero te ofender, por favor não me entenda mal. Você foi uma parte importante da minha vida, mesmo que você não saiba disso. Só que hoje você esquenta outra, alguém que é completamente oposta a mim. O que eu quero dizer é que hoje seu efeito sobre mim é morno. Nem me esquenta nem me esfria. E isso meio que me fez te vomitar. Desculpe pela expressão grosseira e nada elegante, mas eu me sinto feliz por você não mais me atrair, nem mais fazer meus pés flutuarem só para eu cair de cara no chão com uma decisão que eu mesma tomei.
Se me arrependo de minha decisão? De maneira alguma. Se eu voltasse atrás, provavelmente teria evitado aquele pequeno contato que tivemos, não porque me arrependo de você, mas porque me arrependo de ter me permitido ficar tão frágil por algo que eu sempre soube que nunca aconteceria. Não foi com você que tive meu melhor beijo. Não foi com você que tive o meu melhor abraço nem aconchego. Não foi com você que tive as enormes discussões filosóficas sobre a personalidade e probabilidade de algum super herói de quadrinhos se dar bem em uma franquia de cinema. Não foi você que percebeu meus defeitos e riu deles, me ajudando a mudar. Não foi você que fez eu me sentir linda, inteligente, e sensacional demais. Na verdade, você acabou ofuscando tudo o que eu era, e por sua culpa, fiz parte de um estereótipo de potencial casal de high school, o que me faz sentir um pouco de raiva. Não quero ser a mulher que te tem na palma das mãos. Eu não sou assim, não te faria sofrer desse jeito. Mas, no fim, eu queria te ver bem longe. Confesso que ainda tenho um pequeno temor de todo essa paixãozinha acumulada me dê uma cotovelada na costela ao te ver. E por mais improvável que aconteça, minha resposta continuará sendo não.
Para fechar com chave de ouro, descobri que aquelas palpitações que eu tinha eram de fato uma doença. Coisa boba, uma tal de síndrome vaso-vagal. Nada que me mataria. A sensação era convincente, porém bem falsa. Bem como nossa impossível história de amor.
Assim eu me despeço de você, agradecendo unicamente por você ter ficado mais bonito do que era naquela época, assim posso olhar e me orgulhar.
De sua antiga colega de classe,
que espera também ser apagada de sua memória, em caso de ainda existir.
xxxxxx
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